acaixadecha-marivasconi-belezamista
Vocês também têm assuntos que precisam resolver e demoram uma eternidade pra tomar a atitude de resolver, e só resolvem quando dão aqueles famosos “5 minutos”? Sou dessas, admito. Postergo as tarefas chatas da minha vida até onde consigo – mas também, no dia que acordo e falo “Hoje eu resolvo essa piromba”, ninguém me segura.

Começou o ano, e já começou me dando a louca. Voltei de viagem (5 horas no trânsito, delícia), entrei no meu quarto, olhei pros armários cheios, pras prateleiras abarrotadas e pensei “É hoje que eu boto esse quarto abaixo e mando metade dessa tralha embora!”. E botei mesmo. (Mas só no dia seguinte, porque obviamente depois de 5 horas de trânsito, eu merecia um soninho).

Bom, o caso é que comecei a limpar o meu quarto pelo meu armário, mais especificamente, pela parte das tralhas – vocês também dividem o armário entre “roupas”, “sapatos” e “tralhas em geral”? – e, logo de cara, achei uma coisa que eu nem me lembrava mais que tinha guardado: divisórias de plástico que tornavam a minha caixa de chá, uma caixa de chá.

Não entendeu, né?

Seguinte: eu já fui casada (morar junto é ser casado, na prática, então sempre falo que fui casada porque é mais fácil do que falar que “morei junto com meu noivo”) e, quando estava pra casar, viajei pra Alemanha e comprei uma boa parte das coisas da minha casa lá. Uma delas foi uma caixa de chá. Eu amo chá, e quando vi aquela caixa feita de alumínio, branquinha, decorada com florzinhas rosas, e com divisórias de plástico lá dentro pra separar os saquinhos de chá por sabor, foi amor à primeira vista. Comprei sem pensar duas vezes, e durante o período que morei com meu (ex)marido, ela realmente serviu o propósito de ser uma caixa de chá. E, por ser linda, tinha um destaque especial na minha cozinha, e todos que entravam na minha casa, olhavam pra aquela caixa e falavam “Que linda essa caixa de chá!”.  Era meu orgulhinho particular, admito.

Só que o tempo passou, eu me separei, voltei pra casa dos meus pais e, entre outras coisas que trouxe da minha antiga vida como casada, trouxe de volta também a minha caixa de chá. Só que eu não queria mais que ela fosse uma caixa de chá – porque, convenhamos, não fazia mais sentido ela continuar a ser uma caixa de chá na minha nova vida, já que eu moraria com meus pais e eles já tinham uma caixa de chá. Então eu pensei “Não quero enfiar essa caixa linda dentro do armário e só me lembrar dela quando eu for morar fora daqui de novo. E também não faz sentido eu ter uma caixa de chá dentro do meu quarto – porque, se eu precisar de chá, é mais fácil eu me levantar e ir até a cozinha para preparar um. Então, vou transformá-la em outra coisa” e assim, tirei as divisórias de plástico de dentro da caixa, e o que era uma linda caixa de chá, virou uma linda caixa para guardar maquiagens em cima da minha escrivaninha.

Um ano e meio se passou e, logo ao começar a minha faxina, abro o armário e dou de cara com essas divisórias de plástico, que eram o que tornava a minha caixa de chá, uma caixa de chá. Pego-as na mão, me perguntando o por quê de eu ter guardado aquilo, e me lembro que, ao tirar as divisórias da caixa para poder guardar minhas maquiagens nela, há um ano e meio atrás, pensei “Vou guardar essas divisórias, porque vai que um dia eu quero que essa caixa volte a ser uma caixa de chá! Se esse dia chegar, eu precisarei das divisórias novamente, então é melhor guarda-las”.

E, olhando pra divisória de plástico na minha mão, naquele momento, eu cheguei à conclusão de que esse dia não vai acontecer.

Porque eu não quero mais que a caixa de chá seja uma caixa de chá.

Ela foi uma ótima caixa de chá um dia, e me deu orgulho tê-la como caixa de chá. Mas hoje, eu arrumei outro propósito pra ela, e acho que ela funciona muito bem assim. Ela fica linda sendo uma caixa que guarda as minhas maquiagens, fica linda enfeitando a minha penteadeira, e pode ficar linda enfeitando outros lugares que a minha imaginação permitir aqui no meu quarto, ou no futuro quarto que eu tiver com meu futuro marido, ou em qualquer lugar que eu quiser na minha futura casa – ou até, futuramente, em outra casa de outra pessoa.

Essa caixa e eu passamos por muitas coisas juntas. Nós começamos juntas a jornada do casamento, continuamos juntas na época da separação, e nos transformamos juntas durante o período “solteiras”. E vamos continuar nos transformando sempre, porque a vida é assim. É impossível voltar atrás na existência, porque uma vez que nos abrimos para novas possibilidades, as possibilidades antigas não se encaixam mais nas nossas vidas.

Aquela caixa de chá nunca mais será uma caixa de chá. Assim como eu nunca mais serei a pessoa que fui na época em que aquela caixa de chá era uma caixa de chá.

E isso não é ruim.

O fato é que um dia aquela caixa foi ótima sendo uma caixa de chá. Mas hoje, ela é ótima sendo uma caixa de maquiagens. E eu sei que, um dia, ela também será ótima sendo qualquer outra coisa que eu quiser.

Assim como eu mesma.

Resumindo, aquelas divisórias de plástico não habitam mais o meu armário hoje, e nem mais nenhum outro lugar da minha casa, já que elas foram parar no lixo. E a ex-caixa-de-chá, hoje, também não é mais a caixa onde guardo as minhas maquiagens. Coloquei as maquiagens em outra caixa, e hoje, a minha ex-caixa-de-maquiagens é uma caixa aonde eu guardo somente os meus batons.

Por quê? Porque eu achei que, nesse momento, ela está melhor assim.

Escrito por Mariana Vasconi