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Migalhas

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Já teve a sensação de desenhar uma pessoa na sua cabeça e, só depois de muito tempo, perceber que o desenho que você criou era melhor do que a realidade? Pois é. Foi mais ou menos assim o meu último relacionamento. Quando me perguntam “Você o amava?”, a minha vontade é de responder que eu amava a ideia de quem ele era – e não quem ele era de verdade.

Costumo dizer que nos contentamos com migalhas no quesito emocional, mesmo sem perceber. Você acha que seu namorado está estranho, que mal conversa com você, que não tem interesse de saber como foi seu dia e nem de ficar do seu lado no sofá e te dar carinho. Porque tudo isso acontece com uma frequência absurda, e por mais que você tente se enganar, com o tempo, tudo vai ficando mais aparente e as dores de cabeça só de pensar nisso começam a surgir.

Mas, quando é ele quem vem te dar um beijo de surpresa, sem você pedir, ou manda aquela mensagem te chamando de linda sem nenhuma razão, você já pensa “Ah, era tudo coisa da minha cabeça, ele ainda me ama!” e coloca, por um momento, todas as suas dúvidas em uma caixa bem escondida no fundo do seu íntimo, na esperança de que ela nunca precise ser aberta e fique ali até empoeirar.

Se as pequenas demonstrações de afeto que você recebe têm menos frequência do que as pequenas dores de estômago que a maioria das atitudes do outro te provocam, me desculpe, mas você está recebendo migalhas. E ninguém consegue viver de migalhas. Eu, pelo menos, já cheguei à conclusão de que não consigo.

Acontece que, quando menos percebemos, estamos formulando na nossa cabeça uma versão melhorada daquela pessoa com quem estamos. Pegamos todas as partes boas, cada mínimo detalhe que amamos no outro, e colocamos uma lente de aumento a fim de tentar deixar esse lado bom tão grande quanto o lado ruim – que está tão aparente que você mal consegue desviar dele na convivência diária.

Ninguém coloca as coisas na nossa cabeça. Elas surgem lá por um motivo. Se você começa a cantarolar uma música, é porque viu algo que a lembrou da melodia dela. Uma amiga me disse uma vez que nós temos que “ter certeza das nossas dúvidas”. Concordo que algumas dúvidas podem surgir sem nenhum motivo aparente. Mas, se essas ideias permaneceram ali e se fortaleceram, é porque tiveram mais razões para alimentá-las. E sempre é bom lembrar que o outro só nos fará o mal que nós deixarmos que ele faça.

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